
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Pra quem não volta

quinta-feira, 5 de julho de 2007
Sinfonia do fim do mundo

Trajando bermudas esverdeadas pelo tempo, camisa estampada com o rosto de um ídolo pop, dezenas de cordões e bijuterias simples, dedos tortos decorados com anéis de caveira, dentes amarelados devido ao tabaco feroz que consome, único companheiro de trajetória tão lírica. Ele mora num desvão inclinado, entre a Rua da Laranja e a Avenida Beija-flor, dorme de dia e avacalha a vida durante as madrugadas.
Come as gororobas mais acessíveis, tendo paladar refinado, conhecedor que é das comidas ruins distingue bem o gosto das coisas. Bebe a água das fontes públicas, a cachaça barata e deliciosa feita pelos marginais do Beco Aurora. Carrega consigo, sem medo de sonhar, um violão velho que encontrou destroçado num latão de lixo, e canta como um anjo.
Sua voz tem ares de poesia, prega no ar úmido da madrugada uma noção estranha de santidade. Nunca ouvi coisa melhor. Ele canta de tudo. Bossa, rock, o pop velho e sem dentes da atualidade. Os mendigos, os homens-ratos, as mulheres decrépitas e avantajadas, que desprendem um cheiro forte de sexo, os zumbis esquecidos, habitantes da noite, todos param para ouvir a música salvadora do violão encantado.
Mãos

Por entre certas mãos cálidas
Gritam as células, os músculos, as traquéias
Tem graça o corpo
É de graça o carinho
Que faz bem ao coração
E o mesmo corpo balança, dança
Colocado entre certas mãos incertas
Num contato frágil
Rosado
Fica rubra a pele
Os olhos escorrem
A respiração se angustia
E os dedos pequenos
Trançados em conjunto
Apalpam sem pecado o
Corpo alvo, deleitoso
Da sensível prima.
segunda-feira, 2 de julho de 2007

Lilá não estranhava meus atrasos para as reuniões do grupo, ela sabia que eu estaria num café ou livraria qualquer, procurando por algum capuccino que contivesse um aroma ou sabor diferente, ou mesmo um almanaque velho, que sempre se encontravam nas últimas prateleiras das livrarias. Uma vez encontrei um guia de turismo na Itália, dei de presente a Lino, afinal, era dos italianos que Lino descendia e não cabia a mim no grupo uma descoberta precoce da beleza Romana, culinária sciliana e mulheres milanesas. Lino aprendeu algumas receitas que futuramente nos fizeram ir aos céus, comer bem é estar perto de Deus, repetia Lino sempre que fazia o macarrão a gorgonzola.
Quando chegava à porta de Lino, já podia escutar os acordes saídos da vitrola de Sonny, um jazz, cool, Coltrane e nada mais. Gagá sempre estava metida em alguma religião pagã e explicava a alguém que estivesse com paciência suficiente para entrar em nirvana, mantra, suka e etecetera, etecetera. Dado, por ser o mais velho, sempre escutava com atenção, até um dia tentou participar de uma aula de ioga, mas não foi adiante, a professora não permitia que trouxessem bebidas para a academia. Eu não tinha muita paciência com Gagá, aliás, nunca tive muita paciência com as religiões, “você tem que encontrar uma desculpa pra essa merda Alex. Tudo isso tem de ter uma explicação e se não é em Nietzsche, que seja em Jesus”, aconselhava Sonny antes de voltar a escutar os solos de Teddy Wilson.
Metia-me nas reuniões mais para beber e poder ouvir besteiras; as divagações quanto às saídas do capitalismo, a solução para a comunicação, as propostas para o próximo milênio; vez ou outra alguém trazia maconha e, de certa forma, o assunto melhorava. Sonny cuidava sempre da vitrola e de Big Bill Broonzy, Miles Davis, Chu Berry e Benny Carter. Eu cuidava de mim e de um escritor solitário, que vivia entre gatos de várias cores; um ser magro e solitário que residia na minha barriga, contando as palavras.
-Não gosto de repetir essa história
-Mas às vezes é necessário Alex – dizia Gagá – você precisa se prender a algo.
-Minha mãe dizia isso. Você tem que parar de ler essas besteiras; Deusa mãe, pai terra, gaya e etc, que espécie de Deus você acha que vai encontrar? Um senhor de barba branca e raios nas mãos, ou melhor: uma senhora de chapéu pontudo dizendo ser a essência da natureza? Os irlandeses criaram essas porcarias por causa do uísque, se você bebesse menos dessa droga, talvez entenderia que Deus é uma poça d’água, tão comum nos dias chuvosos.
Olhava as construções, as favelas retorcidas, arranha céus, rostos. Naquele tempo os rostos eram menos parecidos, as pessoas tinham mais originalidade, ou não. Gostava de pegar o metrô das onze e meia, era vago, as pessoas que transitavam eram misteriosamente diferentes, continham algum segredo entre os dentes. Eu descobria os sexos e as ações de cada um: o senhor que não conseguia manter o olhar longe do traseiro da doméstica que preferia voltar pra casa em pé - provavelmente por causa do salto, assim mantinha a bunda mais empinada -, a senhora que gostava de passear pela cidade de madrugada, visitando os pontos do metrô, dando para alguns mendigos e vigias. Toda essa cidade pulsava um fluxo único, e eu pensava em Lilá.
Nunca me cansei de suas besteiras, e ela as dizia, sem pudor, perguntava quem era Dostoievski e Kafka, lia Keats e pensava ser Joyce. Todos se mantinham constrangidos e estupefatos, quem teria a coragem de falar tais besteiras? Talvez alguém como Lilá, que pouco tinha a perder e pouco se importava com as opiniões, isso aos poucos conquistou o grupo, que não existia mais sem ela e suas ervas.
-Camomila meu bem.
-Eu não gosto de Camomila.
-Tem de aprender a gostar, lhe fará bem, assim como fez a Sonny.
-Você dormiu com Sonny?
-Dei um chá, apenas. A você que tenho dado outras coisas...
Era sempre no mesmo hotel, na rua da Independência, perto do café image, preço bom, poucas pulgas, desinfetante de limão e algumas camisinhas duvidosas. Depois o cigarro, alguma conversa suspensa sobre os vinhos argentinos, Lilá acreditava na supremacia da uva platina sobre os bons chilenos, “pouco você sabe dos Alpes querida”. Eu a explicara sobre a colheita da uva, os ciclos de frio diferente, o trato e a madeira de que eram feitos os tonéis que continham o sangue de Cristo. Ela se ria, talvez até acreditasse naquela erudição desnecessária, talvez acreditasse em nós ou mesmo em mim.
Os dias em Paris, Londres, Sevilha ou Quixadá, era sempre os mesmos dias onde se firmava as mesmas relações onde o universo era sempre o mesmo universo transverso as nossas idéias onde Lilás era sempre bela besta e burra onde Lino escrevia suas receitas e Sonny cantarolava seu blues onde Gagá rezava para algum ser distante que provavelmente não existia ou existiria em séculos de existência onde eu era eu bem menos do eu.
Alexandre Grecco, 2007.sexta-feira, 29 de junho de 2007
Prato Feito de Domingo

Domingo era sempre a mesma coisa; salame italiano, cerveja preta e corrida de fórmula um. Esperava sempre que algum brasileiro superasse as expectativas da sua semana enfadonha. Depois de mais um dos fracassos, pedia a um dos meninos que buscasse mais cerveja e mantivesse o sorriso no rosto, talvez não existissem famílias assim, as crianças tem fome e desperdiçar comida e carinho é pecado diz o padre nos domingos que ela sempre acompanhava, era a oportunidade dela se ver livre e poder contar ao padre o caso que mantinha com o amigo do marido que assiste fórmula um. O padre a recriminava, eram vinte “ave marias” e dez “pai nossos” e mais um menino no seu quarto, como é de costume dos padres e dos meninos. Almoço simples, feijão, mentira, arroz e uma carne de segunda, tudo era assim de segunda, como essa carne, como a carne da filha do açougueiro, que as vezes dava de cortesia carne de segunda “seu filho é muito respeitoso com minha filha seu Agenor” e Clarisse fugia das carnes e buscava seus amigos, brincava rodava e dava as coxas para que todos gozassem, mas só nas coxas, como um poema sujo. E ele agradecia e dizia “foi bem criado seu Carlos, muito obrigado pela carne, é pra amanhã depois da corrida”. Goiabada cascão, leite moça e o domingo se arrasta. Faustão e festa na praça, as mesmas pessoas e as mesmas cervejas quentes e espetinhos de gato. Depois a embriagez e mais algumas mentiras; o pau não sobe, a dor não passa e mais uma vez eu mijo sangue. Tomo um cachorro em pílula que me come por dentro. Às vezes rola até um baseado mais minha mãe e o amigo e a corrida e as coxas dela – tão quentes. O dia passa e mais uma vez segunda-feira nasce, fria, como nascem friamente cedo as segundas-feiras...
Alexandre Grecco, 2007
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Antes e depois do sol

A pele tostada pelo sol daquele fim de mundo tornou-se eternamente dura, rachada. A família inteira tinha o corpo mesquinho, fraco e os ossos bicudos apresentavam suas formas sob o couro curtido. Na casa não havia eletricidade nem boa comida. Mas o que mais aperreava a noção dura de realidade da senhora Cândida era a inexistência de uma espécie de vidro brilhoso, que vira a muitos anos na cidade, que refletia as pessoas e as coisas. Ela não sabia o nome de tal prodigiosa invenção: espelho.
Depois de Caetano, um por um dos habitantes da casa foram despertando. O dia reservava muito trabalho, esforço em dobro até, pois é data especial, a mais importante do ano, talvez a única que conheciam: Festas Juninas. Das regiões distantes viriam os amigos mais próximos para dançar e beber, talvez comer um pouco, se tivesse comida. Enquanto Caetano, com remorso e pena, sacrificaria um de seus bois, os meninos colheriam o pouco milho para a senhora Cândida, preocupada com sua aparência, pedindo ao Deus dos agricultores um vidro refletor mágico, preparar as delícias típicas.
Chegaram os convidados. Muitos e muitos. A mesa apresentava-se farta aos olhos incrédulos dos matutos. Bebida de sobra. Música boa. Uma fogueira gigante, das maiores já produzidas. As moças com os vestidos juninos, os cabelos em tranças, os rostos pintados, sedução demais para os pobres homens, que não tinham felicidade senão a de estar vivos e possuir mulheres. No dia seguinte, atordoados pela festança, fatigados pela ausência do mundo, ninguém lembrou de ir à missa. O padre não transmitiu sua ira aos pobres sertanejos. Ele estava ocupado, esquentando seu corpo frio com a brasa viva que era a pele mulata de Antonieta, debaixo das bandeirinhas coloridas de São João.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Errante

Deixar amar o errado
Errar o erro do outro
Num espasmo apaixonado
Gritar balidos de raiva
Carregando uma flor lívida
Dançando bêbado numa esquina esquiva
À procura da amada
Que não está ali
Do outro lado da rua
Mas presente aqui
No coração bruto e selvagem
Que resiste incólume a toda tribulação
Mas desfalece em prantos nos descaminhos da paixão.